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Alô, Sônia? É João.

texto: paulo silva jr.  |  ilustração: victor britto

texto: paulo silva jr.  |  ilustração: victor britto

 
Um texto de Joca Reiners Terron na edição de domingo da Folha fala sobre a ‘catástrofe do sumiço do autor’, narrando a vontade de desaparecer do noticiário de nomes como Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Raduan Nassar diante de uma tendência contemporânea onde jovens escritores ‘aparecem como nunca em feiras e festas’.
 
Dalton Trevisan, lembra a reportagem, concedeu uma entrevista pela última vez em 1972 (!), quando falou ao Suplemento Literário de O Estado de São Paulo; na lista dos maiores escritores brasileiros em enquete com especialistas promovida pelo jornal Estado de Minas no ano passado, ele é o mais lembrado entre os vivos: ‘não está nas redes sociais, nunca foi à Flip, não promove noites de autógrafos nem dá entrevistas’. Já Raduan Nassar publicou pela última vez em 1994 e logo anunciou a aposentadoria da carreira literária, se dedicando atualmente à vida rural no interior paulista.
 
Lembrei do livro Ho-ba-la-lá – À Procura de João Gilberto, um ótimo relato do alemão Marc Fisher que passou cinco semanas no Rio de Janeiro – com direito a um pulo na mineira Diamantina, onde o cantor morou antes de voltar ao Rio – numa saga atrás do mito da Bossa Nova: contagiado pelo estilo que conhecera através de um amigo japonês, o autor veio ao Brasil com um violão e o sonho de ouvir Ho-ba-la-lá dos dedos e na voz do ídolo.
 
A obra do escritor europeu encanta em dois aspectos: primeiro, o apurado faro jornalístico na busca por referências, fontes, contradições, pistas; segundo, uma narrativa com ares de romance policial onde Fisher encarna um verdadeiro detetive diante de uma busca que, o próprio reconhecera, era das mais complicadas. 
 
João Gilberto é um caso emblemático nessa recusa à vida social. Tem ali um par de lugares onde pede comida, conviveu nos últimos anos com reclamações de vizinhos por fumar maconha no apartamento e possui uma coleção de processos e tramas judiciais pelos direitos de seus discos e também por reclamação das casas de shows onde ele se apresentaria em 2011 – cancelou alegando uma infecção nas vias respiratórias.
 
Dos episódios pitorescos desse mundo das celebridades reclusas um dos mais legais é o protagonizado por João Gilberto em 2008. Preocupado por não ter como encontrar amigos de São Paulo que gostaria de ver na plateia do Auditório do Ibirapuera, onde se apresentou, ele enviou (através de um terceiro, claro) uma lista de convidados a ser publicada na coluna de Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo.
 
No jornal estavam ‘irmãos Waldemar e Wilson’, ‘doutora Terezinha, prima do Toninho Botelho’, ‘o Marcelo que trabalhava na Varig’, entre outros. Um dia depois, João incluiu novos nomes na coluna, que ainda repercutiu a lista com alguns amigos que confirmaram a ida ao evento.
 
Na época, Rafael Cortez, do CQC, conseguiu chegar até João. Entregou os óculos do programa, marca do humorístico, e depois do show trocou algumas palavras com o músico intransponível. 
 
– Você é o pai da Bossa Nova, por favor, mande um abraço ao pessoal do CQC.
– Um abraço grande, muito obrigado.
– Qual o segredo da batida perfeita, é caipirinha, limão, açúcar demais ou um bom violão?
– Poxa vida… (e entra no carro).
 
João Gilbero à parte, diante da claustrofóbica rotina das grandes metrópoles, vivida onde o tempo e o espaço são mais escassos a cada momento, é interessante que essa reclusão do artista também esteja atingindo os mais jovens. Santiago Nazarian, em texto na mesma Folha que tratou dos escritores que pouco aparecem, falou do êxodo urbano da atual literatura brasileira.
 
‘Fazia parte de uma fantasia antiga de morar um tempo na praia, desenvolver meu gosto pela natação ao ar livre, ficar um tempo isolado de todo mundo que eu conhecia. (…) Na época não tinha nenhuma justificativa intelectual para esse impulso (…), mas eu sabia que a experiência seria valiosa para a escrita’, colocou Daniel Galera, cujo fugere urbem rendeu o premiado Barba Ensopada de Sangue. O relato também trata de vivências parecidas em obras recentes Andrea del Fuego, Ana Paula Maia, Guille Thomazi e Marcelino Freire.
 
Seja qual for o motivo, o isolamento sempre despertará interesse e curiosidade na nossa sociedade citadina que enxerga o trancafiamento ou a fuga como loucura, solidão, fetiche ou o que preferir, desde que não soe normal.
 
No caso de João Gilberto, todo esse mistério traz ainda um componente hipnótico trazido por aqueles que já cercaram o homem, como alertou Roberto Menescal em Ho-ba-la-lá. ‘João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também. (…) De repente, é capaz de você se tornar um amaldiçoado para todo o sempre’, disse ao autor.
 
Acreditasse ou não, Marc Fischer se suicidou pouco antes do lançamento do livro em Berlim. Fico curioso pra saber o que músico pensaria disso. Aliás, numa última viagem, passei horas debatendo com o amigo Caramez – que foi morar na praia, olha só – o que a gente faria se pudéssemos ser o João Gilberto, 83 anos nas costas.
 
– Eu ligaria num desses programas da tarde na TV e pediria pra entrar ao vivo, diria que tenho um recado a dar, cantaria Ho-ba-la-lá e bateria o telefone no gancho.
 
– Já pensou? Alô, Sônia? É João. Me põe no ar.
 
– Quem?
 
– João, porra. João Gilberto.
 
– Tum-tum-tum-tum-tum-tum….
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