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Editorial / Bruno Graziano

Quando fundei o jornal com o Paulo, meu grande amigo, uma das prioridades da linha editorial era a de só haver censura em última instância. O espaço serviria para amigos e novos talentos postarem o que acreditassem ser jornalismo, literatura, fotografia, poesia, arte ou entretenimento. No jornal este filtro sempre foi claro e fácil de empregar, pois só iria para a gráfica o que puséssemos no PDF. Nunca foi necessário.

A primeira edição começou com contribuições ricas, mas mornas em ousadia. Depois, mais gente foi entrando e quem estava desde o início foi experimentando novas linguagens e assuntos e chegamos numa terceira e quarta edição com um bom nível de ousadia, que é fundamental para um projeto como esse que se propõe a fugir da apatia de agrado do “curtir” de parte da internet. E foi ironicamente esta internet que tanto desdenhávamos que chegou até nós, como chega em quase todos os seres hoje em dia, e nos propusemos a ter um site e uma página viva de Facebook.

Eu nem vou entrar no mérito do “gostar ou não gostar” do meu ensaio, pois isso é opinião e somente opinião. Algumas moças acharem ele machista não me surpreende, afinal muita gente acha, sobretudo feministas fervorosas. O que me surpreende são comentários do tipo: “Este tarado fica fotografando bunda por aí, merece apanhar” – “Machinho tirar foto de mulher na rua, colocar um filtro vagabundo e chamar isso de arte!!!! VSF!” – “É sério mesmo que esse “fotógrafo” medíocre tira foto da BUNDA”. São opiniões proferidas de supetão, numa espécie de inquisição do imediato, carregadas de ódio e de rancor. De fato mereço críticas diversas sobre a feitura do ensaio. Muitas delas inclusive me faço sempre que o analiso. Falta uma maior diversidade de raças, idades, tipos físicos, ambientes. Falta também um maior capricho nos enquadramentos, no exagero dos filtros, no tempo do clique. Agora, a grande crítica foi com a dita obsessão por bundas? Quem parar para analisar com sobriedade, verá que partes sexuais do corpo feminino são o que menos me interessa neste caso.

Iniciei o “Por trás” em 2012 e o retomo ocasionalmente. Já tirei quase 500 fotografias e minha gana é chegar, sem pressa, em pelo menos 20.000 fotos de todas as partes do Brasil (e do mundo) para conseguir filtrar 10.000 e um dia expor num mural gigantesco (200 delas já estão expostas num pequeno mural). O primeiro clique foi feito na Avenida Paulista, após me chamar atenção a paleta de cores formada por uma garota loira de vestido branco portando uma bolsa vermelha. Mais a frente dela, ao lado esquerdo, estava um homem de mochila vermelha. Acima dela também havia uma lasca de parede vermelha e ainda ao lado tinha um banner do Banco Santander, também vermelho. Do seu lado esquerdo inferior, havia uma faixa branca daquelas de orientação para cegos. Do lado direito, havia um portão branco. O céu estava nublado, e portanto, branco. Aquilo me chamou atenção por causa da paleta uniforme em pleno acaso da Avenida Paulista as cindo da tarde. Eu tinha acabado de comprar um iphone e estava começando minha carreira como diretor de fotografia, estudando fotojornalismo e obcecado pelos signos das diferentes paletas de cores. Gostei do resultado e resolvi fazer mais, sempre buscando alguma composição interessante. Depois, comecei a reparar na pose da mulher, parada ou andando. Ou na roupa, já que em São Paulo a moda feminina é bem diversa, sobretudo no centro expandido, região onde mais freqüento. O vestuário acabou me chamando mais atenção que a composição e a pose. Depois veio o formato do corpo. Passei a tirar fotos de mulheres de todas as formas, alturas e tipos de andar. Ou pela luz de fim de tarde e de um sol ignorante do meio dia. Tive a fase de querer apenas uma luz bonita. Ou pela paisagem urbana peculiar, pela grande avenida movimentada, pelo atravessar na faixa. Foi a época do mise-en-scéne.

Depois disso eu viajei para vários outros estados e para fora do país e segui fotografando mulheres por trás. Era um jeito prático, original e de não comprometer rostos que encontrei para seguir com esse estudo estético. Após umas 200 fotos, minha namorada me alertou que aquilo a longo prazo e com muita variedade seria um estudo antropológico sobre a mulher de nossa era. Ela trabalha com moda e lê muito sobre história do comportamento e atitudes femininas. Eu nunca me empolguei tanto quanto ela com o ensaio, pois o considerava mais despretensioso, mas segui tirando as tais fotos. Apesar de não focar nem 0,01% do meu tempo nele, eu o levo a sério, eu o considero bom e sei que muita gente gosta e também considera. Ele já foi publicado diversas vezes na internet, em Flickr, em Facebook e nunca houve uma repercussão negativa como esta, o que aumenta ainda mais o meu espanto. Já me perguntaram: “Por quê não tira também de homens?” Respondi que já tive essa vontade, mas ao reparar na rua, percebi que a mulher é muito mais enigmática e poderosa de costas, sobretudo andando. Creio que teria que pensar em outra linguagem corporal para os homens, como por exemplo o jeito de sentar, este que me intriga. Cruzar ou não as pernas, ficar ereto ou jogado, calça ou bermuda. Enfim, fica um mote de ensaio para um futuro próximo.

Tiveram dois fatores que também me animaram a continuar. O primeiro foi quando conheci mais a fundo Helmut Newton e o segundo foi quando um amigo me mandou uma foto tirada pelo Federico Fellini, idêntica a proposta do “Por trás”.

“Dê mais atenção aquilo que te incomoda de supetão”

Repito que não gostar, achar uma merda, cheio de filtro, vazio, machista, faz parte. E justamente essa discussão teria que ter sido preservada tanto no site quanto no Facebook. Foram 5.000 visualizações em menos de 48 horas, o recorde de OcicerO até hoje. O ensaio poderia ter chegado em muita gente se mantido no ar. Se os primeiros 10 comentários foram negativos, tudo bem, normalmente a raiva e a crítica vem primeiro nestes meios. O ensaio é assinado por mim e isso ficou bem claro, por isso minha indignação com a retirada imediata do conteúdo, sob o discurso do ideal de que ele não condiz com os valores do jornal. Essa idéia facebookiana do “curtir”, do azul pacífico, do tudo lindo e compartilhado me incomoda muito. Por este motivo que não tenho mais perfil pessoal faz um bom tempo e uso o perfil da minha produtora cretinamente quando preciso. Também faço parte, confesso, do bundamolismo circundante que impera nesta rede.

Se devo desculpas a alguma das mulheres fotografadas, isso podem ter certeza que é um assunto que cabe a mim e a elas e não a nenhuma inquisição do imediato. Não possuo culpa católica e não admito fiéis jogarem pedra em mim e voltarem para casa como pessoas de bem. Muitas sabem da existência do ensaio e o adoram. Tenho amigas clicadas no meio dele. Minha mãe vive me cobrando uma foto dela por trás. Minha avó tem uma foto dela por trás. Eu tenho que dizer que não concordo com a censura imposta pelo jornal que ajudei a fundar, mas respeitei a decisão pela parceria e amizade. Pois do mesmo jeito que segui com minha convicção a respeito do “Por trás”, entendo a convicção do Paulo em não querer este conteúdo ligado a seu nome. No todo, vejo chegar ao fim este deleite chamado OcicerO, que foi nobre enquanto durou. Mais de 50 pessoas fizeram parte dele de alguma forma. Espero que seja só o esboço de um periódico maior e melhor, um dia quem sabe.

Um abraço,
Bruno Graziano / jornal OcicerO

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